Um texto religioso é tanto retórico
quanto filosófico, sendo aquele em que se é possível reconhecer uma certa
especificidade na linguagem, recheada de metáforas e símbolos, que sugerem uma
significância e sentido que transcende às limitações humanas de investigação e
interpretação teórica do ser e sua relação com a realidade. Do geral, as ideias
desenvolvidas nesse contexto e seus subgêneros¹ compreendem uma diferente
esfera, pessoal e social, de trabalhar eventos diversos, procurando gerar
sentido e reconfigurar a vida humana.
Normalmente, por realizarem
reflexões e estudos sobre uma esfera além do ser, tendem a utilizar uma
linguagem de fronteira que, além de utilizar dos significados mais rotineiros
contidos nos nossos códigos² gerais, são carregados de sentido extra que
compreende os aspectos do divino ou sagrado, e buscando por sua vez, sempre
relacionar e conciliá-los.
Consistentemente tem-se uma tensão
em termos de sentido. Fundamenta-se no contraste entre o que é ou não mostrado,
o que por si desenvolve uma característica que é fundamental deste tipo de
construção textual, o mistério³. Logo, o que se apresenta com as articulações
sintáticas envolvidas neste gênero é um contraste: O mundo com suas leis e sua
relação com o aspecto não evidente da percepção, o misterioso.
Segundo BAKHTIN, os textos desse
tipo trabalham nas experiências religiosas, na qual trazem reflexões e
referenciações e os traduzem para significados que se adaptam ao contexto
social, que por sua vez o assimila. As manifestações dessa adaptação se
encarnam nas então denominadas tradições religiosas e nas práticas rituais.
Tanto os rituais quanto as tradições religiosas são componentes essenciais para
a identificação da linguagem religiosa e, sem eles, o reconhecimento e reflexão
dos textos torna-se tanto incoerente quanto deficiente.
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¹ Classifica-se aqui
subgêneros os gêneros pertencentes à uma mesma categoria de tipo textual, no
caso, o religioso.
² O códigos gerais, como
expressado neste, compreende o conjunto padrão dos elementos linguísticos
vigentes numa comunidade e postos à disposição dos indivíduos para servir-lhes
de meios de comunicação
³ A referência ao
mistério utilizada aqui é a mesma de Gabriel Honoré Marcel(1889-1973), da qual
atribui-se a definição ontológica*, significando “aquilo que não se esgota”.
* Ontologia pode ser
compreendida, inicialmente, como o modo pelo qual as coisas realmente são.
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